Orla Conde: Centro de frente para o mar

Obras, Mobilidade, Social, Cultural | 18/01/2017

A remoção da Perimetral e a construção de túneis permitiram a criação de passeio público de 3,5km que integra centros culturais e recebe eventos durante todo o ano
Espaço antes restrito à Marinha abre caminho à nova Praça Mauá / Foto Bruno Bartholini
Com a demolição do Elevado da Perimetral, a cidade ganhou vista privilegiada da Baía de Guanabara. Frente marítima redescoberta pode ser apreciada de ponta a ponta em grande estilo na Orla Prefeito Luiz Paulo Conde. O passeio público de 3,5 km vai desde a Praça da Misericórdia, próxima ao Aterro do Flamengo, ao Armazém 8 do Cais do Porto. Arborizado, o espaço na região do Porto Maravilha estimula a circulação de pedestres e ciclistas nos deques, calçadão, ciclovia, praças e áreas de convivência. Trecho na antiga Rodrigues Alves ganhou também novo meio de transporte que revolucionou o jeito de se deslocar no Centro, o Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT).
Integrando patrimônio histórico da cidade a uma nova proposta de mobiliário urbano, a remodelação inclui novos bancos de concreto, lixeiras, bancas de jornal e relógios digitais. A iluminação pública também recebe atenção especial com lâmpadas de LED, mais duráveis e econômicas, que garantem redução da demanda e consumo de energia. A novidade também veio no calçamento. Pensando na facilidade de manutenção, durabilidade e reposição, pedras portuguesas foram substituídas por três materiais diferentes: granito, intertravado e concreto sarrafeado.
Além disso, o projeto paisagístico da região prioriza o plantio de espécies nativas de árvores como o Oiti, Ipê-roxo, Pau-Brasil, Cordia e Ipê-amarelo para arborização de vias, praças e frente marítima. No Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana (Cais do Valongo, Jardim Suspenso do Valongo, Centro Cultural José Bonifácio, Pedra do Sal, Largo do Depósito e Cemitério dos Pretos Novos) são utilizadas algumas espécies africanas, como a Bisnagueira e o Baobá.
De volta à Praça Mauá

Praça Mauá, antes encoberta pela Perimetral, abriga Museu do Amanhã e Museu de Arte do Rio e recebe público para contemplação e prática de esportes / Foto CidadeOlimpica.com
Primeiro trecho aberto ao público em 6 de setembro de 2015, a nova Praça Mauá deu um gostinho do que estava por vir por toda extensão do passeio público de 215 mil m² que unifica 27 centros culturais da região central da cidade. Museu de Arte do Rio (MAR), Biblioteca Nacional, Armazém da Utopia, Centro Cultural dos Correios, Centro Cultural Banco do Brasil e Casa França Brasil são alguns dos equipamentos culturais da Orla Conde, além do Museu do Amanhã e do AquaRio, últimos inaugurados (ver mapa). Nas proximidades, cariocas e visitantes também podem conhecer o Cais do Valongo, a Pedra do Sal, a Fortaleza da Conceição, o Cemitério dos Ingleses e o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos.
Orla integra centros culturais e áreas públicas (clique para ampliar o mapa)
Urbanizada no início do século passado, quando a grande reforma do prefeito Pereira Passos aterrou 1,5 milhão de metros quadrados para a construção do Porto do Rio, a Praça Mauá nasceu com a antiga Avenida Central, atual Avenida Rio Branco. Batizada em homenagem a Irineu Evangelista de Sousa (1813-1889), o empreendedor e abolicionista Barão de Mauá, representava a integração da cidade ao Porto e à Baía. No centro da revitalização da Região Portuária, na esplanada diante do Museu do Amanhã, a Praça Mauá se volta novamente ao futuro com o mesmo espírito de integração e desenvolvimento.

Seis vezes maior, o espaço tem hoje 25 mil metros quadrados ante os 4 mil metros quadrados da configuração original. Saiu da sombra do Elevado da Perimetral para se tornar opção de lazer e convivência da cidade.
Área antes restrita à Marinha abre caminho à beira-mar
Desde 3 de abril de 2016, área de 600 metros antes restrita ao uso militar, está aberta como caminho livre entre o Museu do Amanhã, na Praça Mauá, e a Praça Barão de Ladário, na Rua Visconde de Inhaúma. A paisagem era até então desconhecida às margens da Baía de Guanabara, entre a Ilha das Cobras (da Marinha) e o Mosteiro de São Bento.
Passeio pelo trecho permite contemplar prédios históricos, como o Arsenal de Marinha na Ilha das Cobras / Foto Beth Santos

Acordo celebrado entre a Prefeitura do Rio e o Comando do 1º Distrito Naval no processo de demolição do Elevado da Perimetral permitiu a criação do passeio na parte central da Orla Conde. Com 23.627 m² de área, o trecho ganhou mobiliário urbano e paisagismo diferenciado em jardins com plantas como pata-de-vaca, ipê amarelo, pau-brasil e pitanga. A construção do passeio que margeia a Baía de Guanabara lançou um desafio de engenharia para a execução de uma passagem em forma de bumerangue com 70 metros de extensão sob a ponte que dá acesso à Ilha das Cobras. Para essa obra, balsas foram utilizadas na fixação de oito estacas metálicas que compõem a fundação da estrutura com piso revestido em madeira de deque.
A caminhada pelo trecho permite contemplar prédios históricos e o moderno Museu do Amanhã por ângulos pouco explorados. O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, organização Militar da Marinha do Brasil instalada na Ilha das Cobras, é o principal centro de manutenção da Marinha do Brasil e ganha destaque na paisagem. O Mosteiro de São Bento, fundado por monges beneditinos vindos da Bahia em 1590, também ficou em evidência. O prédio foi construído com pedras retiradas do Morro da Viúva, no Flamengo, por africanos escravizados. O Museu do Amanhã é visto por quem chega à Praça Mauá como grande ícone cultural e arquitetônico do Porto Maravilha.
Antiga Rodrigues Alves dá espaço a calçadão em frente aos armazéns
Área da cidade que sofreu por décadas com o efeito da sombra do Elevado da Perimetral foi devolvida à população no dia 7 de maio de 2016 como parque arborizado dedicado ao lazer e à prática de esportes ao ar livre. O espaço de 1 km de extensão e 57.000 metros quadrados entre os armazéns 1 e 6, com passagem do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), ganhou além de 460 árvores em 51 canteiros, deques que convidam o pedestre a contemplar o espaço público. Em parceria com a Cisco, apoiadora oficial dos Jogos Olímpicos Rio 2016, a prefeitura disponibiliza internet “Wi-Fi do Porto” na Praça Mauá e neste trecho da Orla Conde.

Veículo Leve sobre Trilhos circula pela Orla Conde em frente ao mural de grafite do Kobra e dos armazéns do Cais do Porto / Foto Bruno Bartholini
Praça XV, Marechal Âncora e Largo da Misericórdia
O projeto urbanístico que recuperou o histórico Largo da Misericórdia e a Praça Marechal Âncora homenageia o antigo Mercado de Peixes da Praça XV, todos reabertos após obras de revitalização em 29 de maio de 2016. Os 77.978 metros quadrados e 777 metros de extensão entre a Praça XV e o Museu Histórico Nacional trazem nova configuração ao local do antigo porto que marcou a chegada da Família Real, de reis, príncipes, nobres e autoridades em séculos de charme e histórias marcantes do Brasil. Prédios históricos e monumentos do entorno são valorizados. Com a demolição da Perimetral, ganharam mais visibilidade edifícios como o Paço Imperial, o Palácio Tiradentes, o Museu Naval, as igrejas de São José, Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé e da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmo (de 1770).

Projeto da Praça Marechal Âncora homenageia o antigo Mercado de Peixes da Praça XV / Foto Bruno Bartholini
Skatistas têm mais 120.000 metros quadrados para a prática do esporte em frente ao Museu Histórico Nacional. Para os adeptos da contemplação da paisagem, 360 metros quadrados em deques de madeira e 50.000 metros quadrados de granito compõem o novo ambiente de frente para o mar e perto do Aterro do Flamengo.
Praça Muhammad Ali integra nova frente marítima 

Jovens e crianças aproveitam parquinho na Praça Muhammad Ali / Foto Bruno Bartholini

Trecho 21.861 metros quadrados entre os armazéns 6 e 8 da Orla Conde foi inaugurado em 17 de junho de 2016 com abertura da nova Praça Muhammad Ali
, em frente ao AquaRio. Desde o início de 2017, parquinho moderno oferece mais uma opção de entretenimento para jovens e crianças que passam pela área. Próxima à parada Utopia-AquaRio do Veículo Leve Sobre Trilhos, da nova praça também se avista do outro lado da Via Binário do Porto a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, construção neoclássica de 1750.
Lenda do esporte mundial e símbolo da luta contra a desigualdade racial e pelos direitos civis, tricampeão da categoria peso-pesado do box, Muhammad Ali morreu em junho de 2016 aos 74 anos. Em 1960, depois de ganhar a primeira medalha olímpica e retornar aos EUA, entrou em um restaurante cheio de brancos e pediu um hambúrguer. Diante da recusa do atendente em servi-lo, disse: “Sou Cassius Clay, campeão olímpico”. Como não foi servido, jogou a medalha olímpica no Rio Ohio em protesto. Em 1996, convidado para acender a pira dos Jogos Olímpicos de Atlanta, foi presenteado com uma réplica da medalha olímpica que jogou no rio 36 anos antes. Converteu-se ao Islamismo em 1964, mudou de nome e defendeu a paz e a igualdade entre os povos. Contra a Guerra do Vietnã, criticou o envio de militares ao conflito e recusou-se a servir no exército americano em 1967, o que o fez perder o título mundial por três anos. “Nenhum vietcongue me chamou de crioulo. Por que eu lutaria contra ele?”, justificou à época. Ao descobrir ser portador da doença de Parkinson na década de 1980, apoiou medidas para o aprofundamento das pesquisas contra o mal. Dessa forma, a Prefeitura do Rio celebra no Porto Maravilha, área do Circuito da Herança Africana, a memória do atleta nascido nos Estados Unidos que se definia como “Lutador da África”.
Abertura do Largo da Candelária e do Boulevard Olímpico marcam entrega total da Orla Conde

Largo da Candelária integra Igreja da Candelária, Centro Cultural Banco do Brasil e Casa França Brasil / Foto Bruno Bartholini
O Largo da Candelária, área escolhida para instalação da Pira Olímpica pela primeira vez fora do estádio, foi aberto ao público entre a Praça XV e a Praça Barão de Ladário no dia 5 de agosto. A data marcou a inauguração do último trecho da Orla Conde e do Boulevard Olímpico, espaço que recebeu o público para transmissão dos jogos, maratona de shows, intervenções artísticas, atividades culturais e esportivas durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Com a abertura do trecho de 42.463 metros quadrados, tornou-se possível cruzar toda a região entre o Parque do Flamengo e o Armazém 8 do Cais do Porto a pé ou de bicicleta.


Durante os Jogos Olímpicos, Orla Conde recebeu público para shows e atividades culturais e esportivas / Foto Bruno Barholini