Orla Conde, passeio na história com jeito de futuro

Obras, Cultural | 09/11/2015

Com a demolição do Elevado da Perimetral, a cidade ganhou vista privilegiada da Baía de Guanabara. Essa frente marítima redescoberta poderá ser apreciada de ponta a ponta em grande estilo na recém-criada Orla Prefeito Luiz Paulo Conde, passeio público de 3,5 km desde o Armazém 8 do Cais do Porto à Praça da Misericórdia. Arborizado, o espaço na região do Porto Maravilha será voltado à circulação de pedestres e ciclistas nos deques, calçadão, ciclovia, praças e áreas de convivência. A área histórica será cortada por um novo meio de transporte capaz de revolucionar o jeito de se deslocar no Centro e dar um toque futurista, o Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT).

Trecho do futuro passeio público entre a Praça XV e a Candelária

A Praça Mauá foi o primeiro trecho entregue. Os demais têm inauguração prevista para o primeiro semestre de 2016. O paisagismo presente na Praça Mauá, replicado por toda extensão do passeio público, unifica os 215 mil m² de área de convivência e os 27 centros culturais da região central da cidade. Museu de Arte do Rio (MAR), Biblioteca Nacional, Armazém da Utopia, Centro Cultural dos Correios, Centro Cultural Banco do Brasil e Casa França Brasil são alguns dos equipamentos culturais da Orla Conde, além do Museu do Amanhã e do AquaRio, em vias de inauguração (ver mapa). Nas proximidades, cariocas e visitantes também poderão conhecer o Cais do Valongo, Pedra do Sal, Fortaleza da Conceição, Cemitério dos Ingleses e Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, entre outros.

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Presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), Washington Fajardo acredita que a Orla Conde vai promover um reencontro do carioca com o centro histórico. “Esse novo passeio público vai mudar a percepção das pessoas sobre a região, trazendo mais circulação e permitindo fluidez maior entre os espaços culturais já existentes e os que estão em construção. A Orla Conde tem o potencial de mudar o caráter turístico da cidade, voltando mais atenções à memória do Rio de Janeiro e aos seus equipamentos culturais”, comentou Fajardo.

A Praça XV, que volta ao tamanho e à concepção original, terá tratamento diferenciado. A Praça Barão de Ladário, ao lado da entrada do Túnel Rio450, passará por remodelação. O Centro ganha ainda as novas praças da Misericórdia – na área do antigo terminal de ônibus – e Candelária, em frente ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). A ciclovia da Região Portuária cruzará todo o espaço entre o Armazém 8 e a Rua General Justo, beirando a orla.

Caminho para pessoas e ciclistas
O presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp), Alberto Silva, destacou que a Orla Conde exemplifica uma nova maneira de pensar a cidade, menos voltada aos carros e mais às pessoas. “O antigo domínio da Perimetral está se tornando um espaço para a população, com os automóveis sob os pedestres no túnel subterrâneo da Via Expressa. O que era apenas um caminho de passagem nos tempos de Perimetral transforma-se em espaço de lazer com extensa programação cultural nos diversos museus dispostos ao longo da orla e no entorno. As obras também garantem acessibilidade universal aos espaços públicos, aumento de biodiversidade e áreas de convivência”, explicou Silva.

O VLT terá 28 quilômetros e 32 paradas, quatro delas na Orla Conde: Aquário, Pier Mauá, Parada dos Museus e Praça XV. O gerente de Serviços e Obras da Cdurp, João Carlos Zimpel, descreve o trabalho de revitalização: “As obras do VLT estão sendo feitas em paralelo às da Orla Conde. Em alguns trechos toda a parte de infraestrutura de drenagem, esgoto e energia está pronta, e os trilhos do VLT já estão colocados”. O engenheiro compara o novo passeio público ao Aterro do Flamengo, espaço para as pessoas se exercitarem e passearem com a família.

A criação da orla incluiu acordo com a Marinha para liberar trecho no contorno do Morro de São Bento ao público, em área militar antes fechada à população, de frente para a Baía de Guanabara. Outro espaço de circulação restrita prestes a abrir ao público é o dos quatro armazéns do Porto na Avenida Rodrigues Alves. Prefeitura do Rio de Janeiro e Secretaria dos Portos decidiram alterar o status desses galpões, que perderão a classificação de área de alfândega e ganharão nova ocupação cultural dos armazéns, trazendo serviços e mais entretenimento à região.

Iluminação moderna e árvores para a biodiversidade
Integrando patrimônio histórico da cidade a uma nova proposta de mobiliário urbano, a remodelação inclui novos bancos de concreto, lixeiras, caixas semafóricas, bancas de jornal, relógios e abrigos de ônibus desenhados pelo arquiteto Índio da Costa. A iluminação pública também receberá atenção especial com lâmpadas de LED, mais duráveis e econômicas. Para Zimpel, o principal benefício é a redução da demanda e consumo de energia da iluminação pública e custos operacionais em função da elevada vida útil das lâmpadas. A novidade fica por conta do calçamento. Pensando na facilidade de manutenção, durabilidade e reposição, as pedras portuguesas serão substituídas por três materiais diferentes: granito, intertravado e concreto sarrafeado, determinados de acordo com a hierarquia das vias, diferenciando vias primárias de secundárias.

Além disso, o projeto paisagístico da região prioriza o plantio de espécies nativas de árvores Como o Oiti (Licania tomentosa), Ipê-roxo (Tabebuia heptaphylia), Pau-Brasil (Caesalpinia echinata), Cordia (Cordia superba) e Ipê-amarelo (Tabebuia chrysotricha) para arborização de vias, praças e do Frente marítima. No Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana (Cais do Valongo, Jardim Suspenso do Valongo, Centro Cultural José Bonifácio, Pedra do Sal, Largo do Depósito e Cemitério dos Pretos Novos) serão utilizadas algumas espécies africanas, como a bisnagueira (Spathodea campanulata).

Texto: Helena Soares (Colaboração de Felipe Santos)
Foto: Helena Soares