Há 23 anos, o Rio se reencontrava com sua triste história de escravidão

Social, Cultural | 09/01/2019

Casal redescobriu, em 1996, durante obras em casa no bairro da Gamboa, o Cemitério dos Pretos Novos, que funcionou de 1769 a 1830 como depósito de ossadas de africanos que morriam devido às condições desumanas da jornada pelo Atlântico
O Rio de Janeiro reencontrou um capítulo importante de sua história há 23 anos, quando em 8 de janeiro de 1996, o casal de comerciantes Merced e Petrúcio Guimarães dos Anjos descobriu acidentalmente, durante obras de reforma em sua casa na Rua Pedro Ernesto, na Região Portuária, o Cemitério dos Pretos Novos. “Pretos Novos” ou “boçais” era a denominação dada aos cativos recém-chegados da África assim que desembarcavam no porto. Logo que eram vendidos ou aprendiam o português passavam a ser chamados de “ladinos”. Muitos não resistiam às severas e desumanas condições de viagem e morriam pouco depois de desembarcar. Eram enterrados em situação precária na área vizinha ao porto de chegada, o Cais do Valongo.  A descoberta do casal deu origem à fundação do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), que anos depois abriu o local à visitação e o transformou em centro cultural e de formação de professores para ampliar a consciência e o conhecimento da Diáspora Africana.


Casal descobre ossadas durante reforma em casa da Rua Pedro Ernesto em 1996


Em 2011, ano em que o sítio foi reconhecido como um dos seis marcos da presença africana na Região Portuária ao lado do Cais do Valongo, Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Centro Cultural José Bonifácio e Pedra do Sal, o IPN coordenou a primeira pesquisa arqueológica cientificamente orientada para buscar a correta localização do cemitério para fins de preservação. Também neste ano, que marcou a redescoberta do Cais do Valongo durante as obras do Porto Maravilha, o IPN inaugurou a exposição permanente do Memorial dos Pretos Novos. No ano seguinte, a casa abriu a Galeria Pretos Novos de Arte Contemporânea, dedicada a mostras que guardam relação com a temática.
A linha do tempo que pode ser consultada no portal do IPN mostra com detalhes os acontecimentos históricos antes e depois de 1996. O Cemitério dos Pretos Novos funcionou de 1769 a 1830. “Foram depositados neste cemitério restos mortais de dezenas de milhares de africanos brutalmente retirados de sua terra natal e trazidos à força para o trabalho escravo. E igualmente bruta também era a forma como seus corpos foram despedaçados, queimados e espalhados pelo terreno, cobertos apenas com algumas pás de terra”, descreve a instituição.


Instituto Pretos Novos abre as portas como centro cultural e de formação para ampliar a consciência e o conhecimento da Diáspora Africana
Ainda de acordo com os arqueólogos e historiadores que participaram das pesquisas na área por conta das obras do Porto Maravilha e do Veículo Leve sobre Trilhos, apesar de ser considerado o maior cemitério de escravos deste gênero nas Américas, o terreno destinado aos sepultamentos era muito pequeno para tantos corpos. “Este relato revelado pela historiografia e trazido à luz pela Arqueologia, repleto de desrespeito e dor, ainda é desconhecido por muitos, pois não é contado em todas as escolas e nem sequer é mencionado nos livros de história que têm a escravidão como tema”, defende um dos diretores culturais do IPN, Marco Teobaldo. Nas pesquisas, arqueólogos encontraram o primeiro esqueleto inteiro e articulado no Cemitério dos Pretos Novos, carinhosamente batizado de Bakhita.


Arqueólogos encontraram o primeiro esqueleto inteiro e articulado no Cemitério dos Pretos Novos em 2017
Instituição criou grupo para angariar recursos
Relatos de viajantes que estiveram pelo Rio de Janeiro no século XIX revelam que o Cemitério dos Pretos Novos não passava de uma montanha de terra e de corpos despidos em decomposição de tempos em tempos queimados, quebrados e revirados à terra. Em 1853, o Caminho do Cemitério passou a se chamar Rua da Harmonia. Embora houvesse registro de sua existência, a localização era desconhecida por décadas até 1996.
Para Merced Guimarães, diretora do IPN e proprietária da casa, a luta para preservação da memória é de todos. A instituição criou os grupos Amigos do IPN para sensibilizar e mobilizar pessoas e empresas à contribuição financeira e abriu a Loja do IPN, formada por livraria com ênfase na temática africana e afro-brasileira e que comercializa produtos exclusivos criados por artistas que participaram de exposições na Galeria Pretos Novos de Arte Contemporânea.
Visitas guiadas atraíram 18 mil
O último balanço de visitação ao Circuito da Herança Africana promovido pela casa constatou que entre abril e novembro de 2018, 3.011 pessoas fizeram o passeio. O volume de interessados cresceu 11% em relação a 2017. Desde o início do programa que atrai especialmente estudantes, 18 mil visitantes conheceram o circuito que inclui o cemitério. O IPN promove visitas guiadas ao Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana desde 2016. O encontro dura cerca de uma hora e meia e percorre locais importantes para a história da escravidão, não só os oficiais mapeados pelo decreto municipal: Largo de São Francisco da Prainha, Pedra do Sal, Mirante do Morro da Conceição, Jardim Suspenso do Valongo, Espaço Cultural Pequena África, Espaço Cultural Casa da Tia Ciata, Largo do Depósito, Cais do Valongo, Centro Cultural Municipal José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos. O circuito foi reconhecido pelo Decreto Municipal 34.803 de 29 de novembro de 2011, após escavações arqueológicas do Porto Maravilha redescobrirem o Cais do Valongo, declarado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 2017.


Desde 2016, 18 mil visitantes já visitaram o Circuito da Herança Africana guiados por equipe do IPN
Os núcleos Educativo e de Pesquisa são responsáveis por cursos, oficinas e palestras no Projeto Pedagógico que contempla a História da África, História da Região Portuária, Cosmogonia Africana, História do Sagrado, Arqueologia da Diáspora Africana, Conto de tradição oral africana e afrobrasileira, Nações africanas na era do tráfico negreiro e outros temas. A casa defende a valorização de bens imateriais (Capoeira, Jongo, música e oficinas de arte) e promove eventos como aulas práticas e teóricas de capoeira, Jongo e música, para contribuir para a formação cultural do visitante do espaço. Desde 2015, o IPN coordena cursos de Pós-Graduação Lato Sensu em parceria com a Fundação Educacional Duque de Caxias (Feuduc).

Fotos: Divulgação e Bruno Bartholini Mançu
Para mais informações, consulte www.pretosnovos.com.br